DA ACADEMIA

 


 

Durante séculos, aquela que então era a única Universidade em Portugal, a de Coimbra, o corpo docente era exclusivamente recrutado entre os licenciados na própria instituição. Autismo científico puro. Em 1677, a Royal Society de Londres registava a descoberta do espermatozoide, mas em Coimbra continuava a ser proibido dissecar cadáveres para assegurar que não se esquartejasse as almas.

Os Lentes eram os que liam as sebentas (sujas de tanta manipulação) herdadas do catedrático anterior. Nada disto era tradição, era anquilosamento.

Mais: a hierocracia cultural era de tal modo efectiva que o Rei Dom João V foi convencido pelo seu Secretário de Estado Cardeal Da Mota (João da Mota e Silva) a promulgar um Decreto ao abrigo do qual a Universidade devia defender o Dogma da Imaculada Conceição.

Contudo, sem desprimor das reformas introduzidas por Pombal em 1752 e pelos liberais em 1820, foi preciso esperar por 1911 para que o monopólio coimbrão desaparecesse sob os «rodados» das novas Universidades de Lisboa e do Porto.

Face ao enorme atraso cultural em que então caracterizava Portugal (80% < analfabetismo), o ímpeto fundacional das novas Universidades centrou-se na satisfação quantitativa da procura regional de conhecimento solidificado de nível superior ficando a investigação científica aprazada para uma segunda fase das instituições. Só que essa fase coincidiu com o ano de 1933, ou seja, com a nova Constituição e com a chegada do Capitão Agostinho Lourenço.

Quando seria altura de as Universidades se desenvolverem aconteceu que hibernaram ao mesmo tempo que a Academia de Ciências de Lisboa se confirmava como arquivo morto de Ciência caduca. E assim foi até 1974.

Durante o Estado Novo a investigação científica foi sobretudo feita em Estações, Institutos e Laboratórios do Estado, tudo fora das Universidades como se estas tivessem lepra.

Chegado 1974 a revolução marxista-leninista-stalinista instalou-se nas Universidades, ou seja, preponderando a política sobre a Ciência.

Com a democracia em 1976 foram finalmente banalizadas as opções políticas mas constituíram-se, entretanto, outras pertenças e obediências…

Felizmente, toda a regra tem excepção.

Ao contrário do que indiciava a esperança, as Universidades privadas em pouco ou nada alteraram o cenário científico pois que foi mais fácil investir no papel e na caneta do que no microscópio e nos reagentes. E as obediências continuaram…

Mas está chegada a hora da prova de fogo.

A qualidade das Universidades (e de instituições equiparáveis) tem que ser medida pela «prova de fogo» que é a da competitividade em mercado aberto, em função de quatro critérios, a saber:

·                  Verdade científica;

·                   Qualidade pedagógica;

·                   Custos de acesso e frequência;

·                  Empregabilidade.

O mercado livre em que o teste da competitividade deve ser medido é o do e-learning e não outros rankings que padeçam de corporativismo.

Fugir ao e-learning é esconder insuficiências características de eventual caducidade. Basta de instituições que mais não são do que monopólios de divulgação de ciência caduca.

Votos de que as universidades portuguesas avancem decididamente para o e-learning.

 

Fevereiro de 2026

Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

 

Comentários

  1. Bela síntese, que teve a arte e a ciência de entrar fundo nas razões históricas que justificam o nosso relativo atraso. Esta é a virtude dos textos do Dr. Salles da Fonseca. Mergulha na história e tem o condão de a dissecar criteriosamente, como que procurando a sua alma, ou o seu nervo, sem se importar muito com os seus inúmeros adereços que enchem volumes e mais volumes e mais servem para encher estantes, além de desencorajar a leitura.
    É assim que, sem esforço de assimilação, fiquei a conhecer as verdadeiras razões do atraso do nosso país. Não é que não o soubesse, mas a sua exposição de forma sintética, articulada e ordenada é um grande contributo para a informação e esclarecimento do leitor.
    Não poucas vezes, escrevi que a Igreja Católica e a Inquisição - hierocracia cultural - foram as principais responsável pelo nosso atraso ao nível da cultura e das ciências. Por isso, viva a implantação da República e o 25 de Abril. entre estes dois eventos existiu o Estado Novo, que em boa verdade quis retomar o húmus da hierocracia cultural.
    Adriano Miranda Lima

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