ZEIT GEIST

 Ou

O ESPÍRITO DO TEMPO

 

Quando daqui a uns tempos (séculos?) os nossos herdeiros se perguntarem qual era o espírito destes tempos por que agora passamos, talvez a resposta seja «o tempo da desconfiança e da destruição»; não o tempo do medo mas certamente o da insanidade. Desconfiança mútua de pertença a obediências ocultas e malignas. De um lado, a obediência ao imperialismo; do outro, exactamente o mesmo; no meio, o mexilhão a que chamamos Europa.

A precariedade europeia agravou-se com a chegada da boçalidade ao poder nos EUA e com a aparente transformação da Casa Branca em sucursal do Kremlin.

Uma das ideias mais propaladas actualmente tem a ver com a «moleza» dos líderes europeus dando-se assim a entender a sua inaptidão para a liderança. Ora, não é crível que todos os europeus nos tenhamos empenhado em escolher os piores entre nós precisamente para nos representarem. O que é crível, isso sim, é que o método de formação da decisão democrática seja diferente do da autocrática: o método democrático é necessariamente negociado enquanto o outro é ditatorial, rápido mas rígido e, portanto, quebradiço. O método negociado tem necessariamente cláusulas de elasticidade que historicamente lhe têm assegurado a vitória. A aceleração do método democrático faz-se com os «Gabinetes de Crise» e é então que os da autocracia gritam e rangem.

A fronteira está, pois, na opção de Regime e apenas na diferença entre os que pensam por si e os que preferem ser mandados; de um lado o humanismo do Estado que serve o cidadão e do outro o Estado que se serve da carne para canhão.

Mais: por insistente instigação dos da autocracia, a desconfiança popular no método negociado de formação das decisões cresce a cada acto eleitoral como resultado da afirmação verdadeira ou falsa de que tudo é decidido em compadrio, secretismos e corrupção.

Falsas ou não as acusações, a desconfiança é absolutamente verdadeira e há que a corrigir com urgência pela…

  • Desconsideração «ab initio» da denúncia anónima;
  • Regulamentação do «lobby»;
  • Aperto do cerco à corrupção.

A ver se ainda vamos a tempo de suster a desconfiança e parar a destruição. A ver…

Junho de 2026

Henrique Salles da Fonseca

Comentários

  1. .Excelente texto caro Henrique.
    Um grande abraço
    Eduardo Stock

    ResponderEliminar
  2. Tiro na muge!...Só não vê quem não quer...

    ResponderEliminar
  3. Nesta altura em que comemoramos o 10 de Junho, precisamente o dia de hoje, não podia ser mais oportuno este texto do Dr. Salles da Fonseca. É uma reflexão profunda que vai à raiz dos problemas onde o homem se organiza para decidir sobre o bem comum: a política e a sua natureza.
    Aristóteles considerava a política uma extensão natural da ética e entendia que o domínio da razão e da linguagem eram ferramentas suficientes para obrigar o homem a viver em sociedade e realizar o bem comum.
    Podia-se então concluir que desde quando o sábio grego nos deixou o seu legado universal (há 2.400 anos) o homem teve tempo mais que suficiente para se tornar um ser digno de habitar este planeta. Mas não é isso que a História nos testemunha. Apesar do progresso material alcançado ao longo de séculos no âmbito das ciências, a História reporta-nos e dá particular relevo a páginas lúgubres de infelicidade e barbárie, indignas da própria condição de um ser dotado de razão e linguagem, as ferramentas com que a natureza contemplou o Homo sapiens. A política não logrou funcionar como produto da razão, ao contrário das ciências físicas, pois caso contrário não assistiríamos constantemente ao seu insucesso, quantas vezes com consequências catastróficas.
    O Dr. Salles da Fonseca imerge profundamente na natureza da política e focaliza a desconfiança como um grande bloqueador das reações humanas, veneno do funcionamento da política. Desconfiança que é uma realidade inequívoca no seio das sociedades, qualquer que seja a sua dimensão, mas que atinge proporções bem mais vastas entre nações conduzindo constantemente ao conflito e à guerra.
    E aponta 3 soluções para combater ou minorar a desconfiança, mas circunscrevendo a sua incidência às sociedades nacionais, certamente porque não as imagina plausíveis ou minimamente viáveis no diálogo entre as nações.
    Quanto ao seu prognóstico, oxalá...
    Parabéns, Dr. Salles da Fonseca.
    Um abraço amigo
    Adriano Lima

    ResponderEliminar
  4. Quis escrever no meu comentário "bloqueador das relações humanas" e por lapso saiu "bloqueador das reações humanas". A consoante que faltou faz toda a diferença.

    ResponderEliminar


  5. Não é fácil contentar-se com um breve e único comentário, quando o tema da reflexão é questionar o espírito do tempo. Se o desafio é em primeiro lugar para o autor, é-o também para o leitor que comenta.
    O espírito do tempo é o que o homem constrói ao longo de séculos e milénios. No seu epicentro está simplesmente o homem e as suas crenças. Não existe um gradiente pré-definido que indique um vector e um sentido ao que seria a realidade da vida humana. E aqui confrontam-se as teorias do determinismo e do livre arbítrio. É como questionar se existe um sentido para a vida, um destino para onde o homem caminha e que em princípio devia levá-lo a uma existência feliz, caso efectivamente o uso da razão fosse o único determinante do seu comportamento.
    Quando os nossos descendentes, daqui a séculos, se interrogarem sobre a natureza destes tempos que vivemos, que instrumentos de análise e aferição terão para concluir sobre o que quer que seja? Que padrões de comparação terão para concluir se estes tempos foram diferentes de outros na construção das estruturas de poder ou da moral pública?

    ResponderEliminar
  6. M/ Caro Dr. Salles da Fonseca,
    Entre nós, a desconfiança é, apenas, a velha inveja saracoteando-se com as roupagens da sonsice.
    Uma acusa, a outra lança suspeitas.
    Interrogo-me: Porque é que somos assim, geração atrás de geração? De que povo antigo e mítico herdámos estes genes?
    Se os tivesse, daria € 1.0 milhões ou até mais a quem viesse com uma resposta plausível.
    Abraço
    António Palhinha Machado

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, desconfiança, inveja e denúncia anónima são filhas da mesma mãe. Perscrutar de onde provêm os genes não será fácil, mas sugeria que se batesse à porta da Inquisição para não ter de ir mais além, aos adros de uma Igreja Católica que deixou degenerar a mensagem de Cristo. A Inquisição não produziu genes, mas cozinhou e apurou um caldo de cultura em tempo mais que suficiente (285 anos de existência chega e sobra) para criar estigmas mentais e psicológicos que não se extinguem facilmente. Salazar, com a sua PIDE, sabia bem os terrenos que pisava.
      Ora, quantos séculos mais até extirpar esses estigmas?

      Eliminar
  7. Estou plenamente de acordo. Por vezes a 'democracia' vai atrás de 'valores humanitários' duvidosos...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

ABRINDO A PORTA...

SOMOS POUCOS

DO BEM-COMUM