AS VIAS DA IRA – 3

O homicídio e o escândalo são o grande negócio dos meios de comunicação social. Assim se explora a faceta mais prosaica das motivações humanas. Venham as audiências e, com elas, os anunciantes.

«Traz o desastre!» eis como os ardinas atiçavam a morbidez dos potenciais clientes.

Aos brados de «Pureza! Pureza!», a comunicação social vincula nos seus comunicandos a ideia de que os governantes são corruptos, que tudo são tramóias urdidas em compadrios gerados no seio de ambientes secretos. «Eles» são os maus; «Nós», o povo, somos as vítimas de tanta malévola urdidura; os «arautos da ira» que em França são lepenianos e melanchónicos e por cá temos os mais recentemente «chegados» ao hemiciclo beneditino e os das «defuntáguas» que saíram de S. Bento, mas se mantiveram nas redacções da comunicação social dando larguíssimos tempos de antena ao seu aliado de conveniência, o venturoso «arquichegado», todos com o propósito de destruição do nosso conceito unicitário da liberdade. Será que teremos que abdicar de tal unicidade?

Meditemos…

 

Agosto de 2026

Henrique Salles da Fonseca

Comentários

  1. M/ Caro Dr. Salles da Fonseca,
    Sábias palavras.
    Nos dias que correm, os jornais, como "opinion makers", têm um papel de embrulho, apenas residual.
    São os jornalistas - e os galhardetes que entre eles trocam - que lhes dão uma ilusão de importância na sociedade, que na realidade perderam há muito.
    São as TV generalistas que, à compita, acentuam o que há de mais baixo e medíocre, no "bom povo português": a mesquinhez e a inveja.
    E assim vamos.
    Abraço
    António Palhinha Machado

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  2. Completamente de acordo com o Dr. Salles da Fonseca. Aliás, estou sempre de acordo com os conceitos que ele qui exprime. Não o faço por seguidismo ou vontade de agradar ao proprietário do blogue. Faço-o porque ambos partilhamos o sentimento de que a liberdade é a mais preciosa circunstância que define e explica a nossa condição de humanos. E com isso partilhamos também a convicção de que a democracia é até hoje o melhor sistema inventado para vivermos em sociedade, fruindo da liberdade de a aperfeiçoar e valorizar continuamente. Na verdade, limitamo-nos a seguir e a compreender os pensadores que ao longo da história explicaram o valor liberdade, dividindo-se entre a liberdade política/social (direitos no seio do Estado) e a liberdade existencial (a capacidade de escolha do ser humano).
    Por isso, é espantoso que haja mentes que parecem completamente emparedadas, agindo como se nada tivessem aprendido com o legado dos espíritos superiores que a humanidade produziu ao longo de séculos e milénios.
    E é triste que jornalistas e comentadores vendam a alma ao diabo só para não perderem o seu estipêndio, contribuindo com a sua estreiteza mental para municiar o André Ventura e outros cujo móbil é simplesmente aniquilar a democracia.
    O meu sentimento é que estamos a regressar no tempo civilizacional, mau grado toda a catadupa de invenções que julgamos beneficiar a nossa vida material.

    Abraço amigo
    Adriano Lima

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  3. Relativamente ao comportamento da comunicação social, creio que não é exagerado afirmar que a ela se deve a dimensão eleitoral que o partido Chega alcançou nos últimos anos. Nenhum político beneficia de mais publicidade do que André Ventura. Cada aleivosia que lhe sai da boca é logo divulgada e amplificada pelos canais de notícia. Nas entrevistas, raro, muito raro, é o entrevistador que procura desmontar as inverdades e distorções da realidade com que ele tenta captar a adesão do eleitorado.
    Não é que se deva boicotar o demagogo, mas a comunicação social tem de ser criteriosa e responsável. Isto se está ao serviço da democracia, o que começa a suscitar sérias dúvidas.
    Conforme a denúncia que o Dr. Salles da Fonseca faz no seu texto, é absolutamente incompreensível o tempo de antena que é dado à. criatura.
    A sociedade portuguesa tem de reflectir sobre o regime em que quer viver, não sendo crível que queira regressar ao passado.

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